"Uma educação para a evolução pessoal e social"

Claudio Naranjo

 

"É tão difícil mudar algo na educação que, diferente de outros tempos em que eu era otimista, estou chegando a pensar que assim como se falou de um complexo militar-industrial no qual se confundem a violência consciente e a tirania do dinheiro, talvez devamos nos perguntar se a educação, com pleno conhecimento ou não, não é o braço secreto deste sistema opressor: uma instituição cúmplice do sistema econômico, que ao invés de ajudar a consciência humana e o equilíbrio da sociedade, está servindo para a perpetuação do status quo1 e, por sua vez, hipocritamente, para a ignorância (ignorância no sentido mais profundo da palavra, que não guarda relação com a alfabetização mas com o entender o que nos acontece e o que acontece em torno a nós). Aquele que compreende a fundo o que se passa não pode deixar de comoverse e de sentir que existe uma tragédia implícita na disfunção do nosso sistema educacional."

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"Uma educação do indivíduo inteiro para um mundo unificado"

Claudio Naranjo

 

Fala-se muito hoje em dia de uma ”mudança de paradigma“ na ciência e, mais geralmente, no modo de compreender o mundo e o ser humano. Qual é esse novo paradigma, que invocam tanto a nova física como a psicologia contemporânea, e como, de um modo mais ou menos implícito, está afetando praticamente todos os campos do saber e do fazer? Podemos chamá-lo ”holismo“ ou ”integralismo“: um enfoque centrado no todo. Esta é a perspectiva que subjaz a inspirações tão diversas como a teoria geral de sistemas, o enfoque sistêmico da ciência da administração e a gestão de empresas, o estruturalismo, e a psicologia da forma. A característica mais chamativa de nossa época é uma nova maneira de conceber as estruturas, a organização, a inter-relação das partes em um todo. A vida e o universo se nos apresentam hoje em dia como meta-estruturas evolutivas.

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"Normose e prática docente:

Desafio para a formação de professores"

Claudio Naranjo

 

"Também na cultura escolar é possível verificar situações em que os sujeitos - e considero aqui de forma especial os professores3 - se defrontam com os embates entre o desejo de uma postura pedagógica inovadora e o medo da recusa da comunidade educativa (direção, coordenação, professores, alunos, funcionários, pais, comunidade) com as conseqüências de exclusão e ostracismo. Não poucas vezes estes sujeitos calam a voz do próprio desejo, fogem da luta e do conflito para legitimá-lo e preferem, ou pacificamente ou raivosamente (ainda que de forma camuflada!), simplesmente cumprir a norma e reproduzir o padrão, sem ousar propor o diferente. A repetição deste comportamento ao longo do tempo pode levar estes sujeitos à condição doentia de não serem eles mesmos nos ambientes profissionais escolares (e possivelmente em outros ambientes!), até o dia em que cheios deste jogo rebelem-se decidam lutar por serem eles mesmos e manifestar na escola a contribuição original que pode brotar do núcleo da identidade que estão construindo. Isto significa também lutar pelos outros. É possível pensar ainda que muitos sujeitos talvez não tenham a coragem e o desprendimento suficiente para enfrentar os medos básicos que prendem-nos nas condições de normóticos e que, portanto, permaneçam estagnados. É a negação da vida e a afirmação de uma .cultura de morte.. É assustador pensar, embora seja compreensível, que este sujeito seja referência para aqueles seres humanos, os alunos e alunas, que também nas escolas estão fazendo sua iniciação ao modo humano de construção da existência. Embora seja assustador, a situação é real, cotidiana: «normal»!"

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"Multirreferencialidade e Transpessoalidade:

contribuições para a construção de novas propostas escolares"

Elydio dos Santos Neto

 

"Entender a realidade como complexidade; perceber as vinculações que existem entre todas as coisas; compreender o valor das relações intersubjetivas na construção do sujeito individual e coletivo; considerar o sujeito na sua inteireza e enfrentar os elementos contraditórios da condição humana pode facilitar o processo que leva a assumir um posicionamento político voltado para a construção de uma sociedade com capacidade de solidariedade, contra as atuais práticas de exploração e desumanização da «cultura de morte»."

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CONSTRUÇÃO (AUTO)BIOGRÁFICA E FORMAÇÃO DE EDUCADORES: UM OLHAR DESDE UMA PERSPECTIVA TRANSPESSOAL

Elydio dos Santos Neto

 

"A visão antropológica do homem máquina que aloja uma alma, cuja essência é o pensamento e que provocou o dualismo entre matéria e mente, o corpo e a alma, continua tendo profundas repercussões no pensamento ocidental, com desdobramentos nas mais diferentes áreas do conhecimento humano, como na biologia, na medicina, na psicologia e na educação, para citar apenas algumas delas. Essa visão nos levou a aceitar o nosso corpo separado de nossa mente, como coisas absolutamente desconectadas. (...) Na área educacional, as influências do pensamento cartesiano-newtoniano parecem ainda mais graves considerando o seu significado para a formação de novas gerações, com sérias implicações para o futuro da humanidade. (...) Na escola, continuamos limitando nossas crianças ao espaço reduzido de suas carteiras, imobilizadas em seus movimentos, silenciadas em suas falas, impedidas de pensar. (...) Apesar de todas as correntes filosóficas que continuam disputando o espaço pedagógico, o que observamos é que a escola atual continua influenciada pelo universo estável e mecanicista de Newton, pelas regras metodológicas de Descartes, pelo determinismo mensurável, pela visão fechada de um universo linearmente concebido. Conseqüentemente, é uma escola submetida a um controle rígido, a um sistema paternalista hierárquico, autoritário, dogmático, não percebendo as mudanças ao seu redor e, na maioria das vezes, resistindo a elas."

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Consulte aqui as últimas informações disponíveis sobre este importante ciclo de conferências que decorre em Madrid.


CARTA DA TRANSDISCIPLINARIDADE

 

PREÂMBULO

 

Considerando que a proliferação actual das disciplinas académicas e não-académicas conduz a um crescimento exponencial do saber, o que torna impossível uma visão global pelo ser humano,

 

Considerando que só uma inteligência que dê conta da dimensão planetária dos conflitos actuais poderá fazer face à complexidade do nosso mundo e ao desafio contemporâneo de autodestruição material e espiritual da nossa espécie,

 

Considerando que a vida está fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante, que só obedece à lógica assustadora da eficácia pela eficácia,

 

Considerando que a rotura contemporânea entre um saber cada vez mais cumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido conduz à escalada dum novo obscurantismo, cujas consequências no plano individual e social são incalculáveis,

 

Considerando que o crescimento dos saberes, sem precedente na história, acentua a desigualdade entre os que os possuem e os que deles estão privados, gerando assim desigualdades crescentes no interior dos povos e entre as nações do nosso planeta,

 

Considerando simultaneamente que todos os desafios enunciados têm a sua contrapartida de esperança e que o crescimento extraordinário do saber pode conduzir, a longo prazo, a uma mutação comparável à passagem dos homídeos à espécie humana,

 

Considerando o que precede, os participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (Convento da Arrábida, Portugal, 2-6 de Novembro de 1994) adoptam a presente Carta compreendida como um conjunto de princípios fundamentais da comunidade dos espíritos transdisciplinares, constituindo um contrato moral que todo o signatário desta Carta faz consigo próprio, livre de qualquer constrangimento jurídico e institucional.

 

Artigo 1: Qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma definição e de o dispersar em estruturas formais, sejam elas quais forem, é incompatível com a visão transdisciplinar.

 

Artigo 2: O reconhecimento da existência de diferentes níveis de realidade, regidos por diferentes lógicas, é inerente à atitude transdisciplinar. Qualquer tentativa de reduzir a realidade a um único nível regido por uma única lógica não se situa no campo da Transdisciplinaridade.

 

Artigo 3: A Transdisciplinaridade é complementar da aproximação disciplinar; ela faz emergir da confrontação das disciplinas novos dados que as articulam entre si e que nos dão uma nova visão da natureza e da realidade. A Transdisciplinaridade não procura a dominação de várias disciplinas mas a abertura de todas as disciplinas ao que as atravessa e as ultrapassa.

 

Artigo 4: O elemento essencial da Transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e para além das disciplinas. Ela pressupõe uma racionalidade aberta, por um novo olhar sobre a relatividade das noções de «definição» e de «objectividade». O formalismo excessivo, a rigidez das definições e a absolutização da objectividade comportando a exclusão do sujeito conduzem à deterioração.

 

Artigo 5: A visão transdisciplinar é deliberadamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exactas pelo seu diálogo e a sua reconciliação não somente com as ciências humanas mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência interior.

 

Artigo 6: Em relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a Transdisciplinaridade é multireferencial e multidimensional. Tendo em conta a concepção do tempo e da história, a Transdisciplinaridade não exclui a existência dum horizonte transhistórico.

 

Artigo 7: A Transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências.

 

Artigo 8: A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O aparecimento do ser humano na Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da Transdisciplinaridade. Qualquer ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, sob o título de habitante da Terra, ele é simultaneamente um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional desta dupla pertença - a uma nação e á Terra - constitui um dos aspectos da investigação transdisciplinar.

 

Artigo 9: A Transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta em relação aos mitos e às religiões, por aqueles que os respeitam num espírito transdisciplinar.

 

Artigo 10: Não há um local cultural privilegiado donde seja possível julgar as outras culturas. A atitude transdisciplinar é ela própria transcultural.

 

Artigo 11: Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstracção no conhecimento. Ela deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. A educação transdisciplinar revaloriza o papel da intuição, do imaginário, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos.

 

Artigo 12: A elaboração duma economia transdisciplinar fundamenta-se no postulado de que a economia deve estar ao serviço do ser humano e não o inverso.

 

Artigo 13: A ética transdisciplinar recusa toda a atitude que rejeita o diálogo e a discussão, de qualquer origem - de ordem ideológica, científica, religiosa, económica, política, filosófica. O saber partilhado deve conduzir a uma compreensão partilhada, fundada sobre o respeito absoluto das alteridades unidas por uma vida comum numa única e mesma Terra.

 

Artigo 14: Rigor, abertura e tolerância são as características fundamentais da atitude e da visão transdisciplinares. O rigor na argumentação que entra em conta com todos os dados é o guardião relativamente aos possíveis desvios. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às ideias, comportamentos e verdades contrárias às nossas.

 

Artigo final: A presente Carta da Transdisciplinaridade é adoptada pelos participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, sem apelo a qualquer outra autoridade que não seja a da sua própria actividade.

 

Segundo os procedimentos que serão definidos de acordo com os espíritos transdisciplinares de todos os países, a Carta está aberta à assinatura de qualquer ser humano interessado pelas medidas progressivas de ordem nacional, internacional e transnacional pela aplicação destes artigos na vida.

 



 




Setrok Layl, 2008