I. Apetece. Acontece(?)

É de papel o corpo em que me inscrevo
e de carvão os riscos da memória que amanhece.
Traço rotas de países ausentes
e logo te vejo nua no nevoeiro dos mapas
que Pessoa escreveu para te cobrir de infinitos,
à noite. Infinitamente.
A poesia de papelão invade de máscaras e de carvão
as ruas ferozes de Pamplona que com os teus lábios
fazes acontecer na planície inquieta do meu peito veloz.
Teces carris de comboio
para o traço de carvão que te descreve em duas linhas.
Arriscas o beijo. Ofereço-te o Nilo.
Traço o abraço. Dás-me Paris.
Devolvo-te à cartografia de nuas e ébrias ruas
com passos de ir e de não voltar, de voltar e daqui não ir.
Só a monção letal no teu corpo de argila
faz irromper o musgo da manhã que humedece.
E acontece. E apetece. Acontece e apetece
o musgo, e também as cinzas do meu País de carvão.
Acontece a plasticidade do papel em que escrevo,
de novo branco como toiro enraivecido,
negro como o vapor dos comboios que só sabem regressar,
não ir e às voltas, sem voltar nem voar,
teimar em pousar nos carris de carvão
onde a chuva, agora, acontece.
Apetece o papel em que me inscrevo,
lavada que foi a escrita de carvão
pela humidade quente da nossa monção.
Anoitece. O teu corpo, enfim, arrefece. Apetece?
Fernando Cortes Leal,
27 de Abril de 2007
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